A Importância do Apego no Processo de Desenvolvimento

Maria Inês de Souza Gandra - Pós-graduanda do Departamento de Pediatria da UNIFESP-EPM

Profª. Dr.ª Maria Aznar de Farias - Professora Adjunto do Departamento de Pediatria da UNIFESP-EPM

 

RESUMO

O objetivo deste trabalho é, a partir de uma revisão de parte da bibliografia desenvolvida no período de 1988 a 1999, e algumas reflexões clínicas, pontuar a importância do estabelecimento de apegos seguros na infância para o desenvolvimento saudável do indivíduo.

Tendo como base a Teoria do Apego de John Bowlby, com suas bases etológicas e psicanalíticas, examinam-se os comportamentos de apego em diferentes idades, seus padrões e características de estabilidade e persistência.

O maior número de trabalhos nesta área examinam o apego na primeira infância. O padrão de apego desenvolvido pela criança em relação à mãe, é influenciado por fatores constituintes da personalidade de cada um e interfere no desenvolvimento social do indivíduo, até a vida adulta.

A bibliografia consultada, atem-se ao período de 1988 a 1999 e, parece haver consenso sobre a necessidade de maiores pesquisas sobre a persistência dos comportamentos de apego ao longo da vida do indivíduo e sua correlação com outros aspectos da personalidade.

As poucas referências a períodos posteriores de desenvolvimento, nos levaram a algumas questões sobre os efeitos dos padrões de apego adquiridos na infância, sobre os indivíduos adolescentes e adultos.

Palavras chave: Desenvolvimento; Apego; Bowlby

ABSTRACT

The purpose of this study, based on a bibliographical review and some clinical reflections, is to determine the importance of establishing safe attachments along the childhood for the healthy development of an individual.

Having John Bowlby’s Attachment Theory as its cornerstone, with its ethological and psychoanalytical bases, we observe the attaching behavior along an age range, its patterns and characteristics of stability and persistence.

Most of the studies in this area focus on attachment in the early childhood. The attachment pattern developed by the child regarding his mother is influenced by the intrinsic elements of the personality of each of them and interferes in the social development of the individual, up to his grown-up life.

The bibliography researched ranges from 1988 to 1999, and there seems to be a consensus as regards to the need for further research on the persistence of attaching behaviors along a person’s life and its correlation with other aspects of his personality.

The few references to later development periods led us to question the effects of attachment patterns acquired along the childhood over teenagers and adults.

Keywords: Development; Attachment; Bowlby

 

Introdução

 

Estudar o estabelecimento e desenvolvimento do apego como fator que contribui para o desenvolvimento saudável dos indivíduos é o objetivo deste trabalho. Buscaremos a partir de dados de nossa experiência clínica amparados por parte da literatura, desenvolvida entre l988 e 1999, discutir como o apego seguro, vivido na primeira infância influencia nas relações do indivíduo com a sociedade.

Apego é uma expressão usada tanto pelo senso comum quanto nos meios acadêmicos. Popularmente usa-se com freqüência expressões como: fulano é muito apegado à sua mãe; beltrano é muito apegado à sua família ou a seu namorado (a). Na definição de Ainsworth (1989) citada em Bee (1996), tais expressões referem-se, em verdade, a um vínculo afetivo desenvolvido pelo indivíduo em relação a um parceiro que, por sua importância, deseja-se que sempre esteja próximo e que não pode ser substituído por nenhum outro.

O apego é definido por Bee (1996) como uma variação do vínculo afetivo, onde existe a necessidade da presença do outro e um acréscimo na sensação de segurança na presença deste. No apego o outro é visto como uma base segura, a partir da qual o indivíduo pode explorar o mundo e experimentar outras relações.

Bee (1996) usa o relacionamento pais e filhos para demonstrar a diferença entre apego e vínculo afetivo. O sentimento do bebê em relação a seus pais é um apego, na medida em que ele sente nos pais a base segura para explorar e conhecer o mundo à sua volta. O sentimento dos pais em relação ao filho é mais corretamente descrito por vínculo afetivo, já que os pais não experimentam um aumento em seu senso de segurança na presença do filho, e tampouco o filho tem para os pais a característica de base segura.

 

A Teoria do Apego e algumas reflexões clínicas

 

O interesse e as pesquisas de John Bowlby, psiquiatra e psicanalista inglês, sobre os efeitos da privação da figura materna para a saúde mental em crianças, começaram a partir de sua experiência como assessor da Organização Mundial de Saúde na área de saúde mental. Bowlby, juntamente com James Robertson (1948), estudou os efeitos da privação materna em crianças com idades entre 2 e 4 anos. Estas crianças foram observadas antes, durante e depois da separação de suas mães (Bowlby, 1990).

Bowlby iniciou o desenvolvimento de sua teoria do apego, a partir de bases psicanalíticas e etológicas. Porém ao contrário da teoria da psicanálise, tentou estabelecer prospectivamente os efeitos da privação da figura materna em idades sensíveis para o desenvolvimento, conceito extraído da etologia (Bowlby, 1990).

A conduta humana pôde ser melhor entendida a partir da aplicação das Teorias Etológicas, que traduziram os conceitos evolucionistas biológicos em termos de conduta.

Quando John Bowlby estudou o vínculo entre mãe e filho, concluiu que essa ligação era parte de um sistema de comportamento que servia à proteção da espécie, já que os bebês humanos são indefesos e incapazes de sobreviver sozinhos por um longo período de tempo. Deste modo, o apego dos bebês às suas mães ou cuidadores é o que possibilitaria a sobrevivência da espécie (Bowlby, 1990; Hoffman et al, 1996).

Dentre as muitas contribuições que as pesquisas em etologia trouxeram ao estudo do desenvolvimento humano, uma delas foi a de que em alguns períodos da vida os indivíduos estão mais sujeitos a serem influenciados por determinados fatos, que em outros. Este conceito, chamado em etologia de Períodos Sensíveis, é observado na natureza animal. Um exemplo é o experimento realizado por Lorenz (1935) com patos que 15 horas após saírem do ovo tendem a seguir qualquer objeto que se mova (Bowlby, 1990)

No desenvolvimento humano pré natal podemos extrair exemplos de fatores como doenças contraídas pela mãe, ou a ação de agentes químicos que são mais nocivos em determinados períodos da gestação. (Bee, 1996).

Vários autores sustentam que os primeiros dias, talvez mesmo as primeiras horas depois do nascimento, representem um período sensível, onde a mãe está particularmente apta a constituir um elo de ligação com seu filho.

Mazet e Stoleru (1990), citam um estudo cujos resultados apresentaram diferenças importantes quanto ao desenvolvimento de comportamentos de apego quando foram comparados dois grupos de pares mãe-filho que diferiam quanto à quantidade de contato nos primeiros dias pós natais. O grupo que havia tido maior contato demonstrou, posteriormente, comportamentos de apego melhor estabelecidos que o grupo de menor contato.

No caso dos estudos sobre desenvolvimento do apego, observações de bebês de 6 meses de vida sugerem que nos meses precedentes a maioria dos bebês se encontrava num estado de elevada sensibilidade para o desenvolvimento dos comportamentos de apego (Bowlby, 1990).

O autor acima, afirma ainda que é preciso explorar a possibilidade de se extrapolar a compreensão obtida a partir das pesquisas com outras espécies animais, para a compreensão de alguns processos de desvios de personalidade. Tais processos, argumenta Bowlby, podem ter sua origem em distúrbios no desenvolvimento de processos biopsicológicos, assim como observado em algumas espécies que, ao serem privadas das possibilidades de realização de tarefas básicas desenvolvem comportamentos neuróticos, de conflito, deslocamento, fixações, etc...

A Teoria do Apego tem, em suas bases psicanalíticas, a compreensão da importância do vínculo inicial da criança à sua mãe, discutindo os comportamentos de apego em termos de relações objetais. Utiliza-se porém de terminologia própria, "apego" e "figura de apego", em substituição àquela freqüentemente usada em escritos que descrevem a teoria Kleiniana (Bowlby, 1990).

Apesar da concordância entre os psicanalistas sobre a importância da primeira relação da criança com a mãe para o desenvolvimento de sua personalidade, muitas dúvidas e desconhecimentos ainda persistem com respeito à natureza deste vínculo.

Um pressuposto largamente aceito diz respeito a ligação do bebê com sua mãe, por ser esta a fonte de satisfação de suas necessidades biológicas que devem ser satisfeitas, sendo a frustração dessa satisfação geradora de patologias observáveis, quando do processo de análise do indivíduo adulto (Bowlby, 1990)

O psicanalista John Bowlby, empresta da Teoria da Aprendizagem o termo Teoria do Impulso Secundário e o aplica a esta situação, de o bebê ligar-se à figura materna no interesse da satisfação de suas necessidades.

A partir da primeira relação, segundo Bowlby (1990), estabelece-se no indivíduo um modo de funcionamento, Modelo Funcional Interno. A criança que tem em sua experiência um modelo seguro de apego vai desenvolver expectativas positivas em relação ao mundo, acreditando na possibilidade de satisfação de suas necessidades. Já uma outra com um modelo menos seguro, poderá desenvolver em relação ao mundo expectativas menos positivas.

O estabelecimento de um modelo de apego seguro ou inseguro fornece a base para a formação de um Modelo Funcional Interno, uma lente a partir da qual o indivíduo vai ver o mundo e a si própria (Bowlby, 1990).

Mary Ainsworth e colaboradores (1978), desenvolveu um experimento, denominado "Situação Estranha", para identificar padrões de apego, em crianças entre 12 e 18 meses. Este estudo possibilitou a identificação de três padrões diferentes de apego.

• Apego seguro: As crianças classificadas nesta categoria demonstraram ser ativos nas brincadeiras, buscar contato com a mãe após uma separação breve e serem confortadas com facilidade, voltando a se envolver em suas brincadeiras;

• Apego inseguro/esquivo: nesta classificação incluiu aquelas crianças que após uma breve separação da mãe, evitou se reunir a ela quando de sua volta;

• Apego inseguro/resistentes: essas crianças demonstraram, na situação experimental uma oscilação entre a busca de contato com sua mãe e a resistência ao contato com esta, além de terem se mostrado mais coléricos ou passivos que as crianças com os padrões de apego anteriormente descritos (Bowlby, 1990).

Mary Main sugeriu uma quarto padrão que chamou de: apego inseguro/desorientado e/ou desorganizado, onde a criança apresenta um comportamento entorpecido, confuso ou apreensivo, podendo demonstrar também comportamentos contraditórios, como evitar o olhar da mãe enquanto aproxima-se desta (Bee, 1996).

A maioria das pesquisas sobre apego e vínculo afetivo, concentram-se na primeira infância e nas primeiras relações mãe-filho.

Brazelton (1988), descreve o vínculo afetivo entre pais e filhos como um processo contínuo que se inicia na gestação e vai se formando na medida em que as interações vão ocorrendo.

Klaus e Kenell (1993) propõe medidas a serem tomadas na sala de parto, como a redução da luz e som do ambiente a fim de facilitar a formação do apego do bebê com seus pais já nos primeiros momentos de vida, pressupondo com isso a disponibilidade dos recém nascidos para um vínculo afetivo.

Mazet e Stoleru (1990) falam do olhar como uma modalidade interativa essencial, que pode ser observada em recém nascidos de poucos dias de vida. Quando estão sendo amamentados os bebês de 15 dias de vida, já procuram fixar os olhos no rosto da mãe. Reciprocamente a mãe responde a esse olhar encontrando também o rosto do seu bebê, estabelecendo por instantes um contato olho a olho.

Esses eventos em um recém nascido de menos de 30 dias de vida, tem a duração de alguns segundos, mas ilustra tanto a necessidade e busca dos bebês por um vínculo humano quanto a característica bidirecional do contato que se estabelece.

Depois do olhar os gritos dos lactentes são exemplos de comportamentos interativos. Os gritos dos bebês tem a capacidade de suscitar no adulto sentimentos intensos que os levam ao encontro da criança, na tentativa de solucionar sua aflição. Com isso o grito cumpre uma de suas funções, a de eliciador de proximidade com o outro (Busnel, 1997).

É por volta dos 8 meses de idade que os primeiros comportamentos de apego são identificados, tomando por base as reações do bebê de mudar as expressões faciais de riso para um semblante mais sério, de chorar, agarrar-se à mãe, etc.. quando um estranho se aproxima e tenta interagir com ele. Essas reações, chamadas pela psicanálise de angustia de separação, persistem nos bebês até mais ou menos o primeiro ano de vida.

Com o desenvolvimento das capacidades de locomoção as crianças vão aos poucos distanciando-se da mãe, voltando sempre a procurá-la quando algo novo acontece no ambiente, e retomando suas atividades de exploração quando novamente sentem-se tranqüilas. Erickson ao descrever as tarefas que o indivíduo deve realizar em cada etapa da vida, situa no primeiro ano de vida a confiança na mãe e na própria capacidade de fazer as coisas acontecerem e, aponta um apego inicial seguro como um elemento essencial para a resolução do conflito inicial entre confiança básica versus desconfiança Bee (1996).

A característica bidirecional dos comportamentos de apego nos levam a considerar também, para este trabalho, o vínculo afetivo desenvolvido pela mãe em relação a seu filho.

A interação mãe-filho iniciada durante a gestação, é permeada por emoções intensas vividas pela mãe. Sentimentos como ansiedades, angustias e uma grande agitação, fazem parte desse período que Brazelton (1988) chama de preparação da energia emocional dos novos pais para apegar-se ao bebê.

O nascimento do bebê inaugura uma nova etapa nessa relação, agora não é mais o filho idealizado ou a imagem fantasmática, mas o bebê real que ali está. É o início da formação de um vínculo entre duas pessoas com as características próprias de cada uma.

Winnicott (1993) nos chama a atenção para a capacidade das mães em dedicar a seus filhos, no momento em que este precisa, toda a atenção, suprindo suas necessidades de alimentação, higiene, acalanto ou no simples contato sem atividades, que cria condições necessárias para que se manifeste o sentimento de unidade entre duas pessoas.

A reciprocidade da interação mãe-bebê dá a ambos a qualidade de agentes no processo, onde a mãe introduz na situação aspectos de sua história e momento de vida. Uma mãe sob estresse, deprimida ou que não tenha estabelecido com seus pais um modelo de apego seguro, pode não estar pronta a responder adequadamente às necessidades de seu filho.

Do mesmo modo, os bebês que são mais agitados, choram muito ou são difíceis de serem consolados, bem como aqueles que vivem ou viveram situações estressantes de hospitalizações prolongadas, abandono por parte dos pais ou qualquer outra situação de privação social ou afetiva, podem não apresentar comportamentos eliciadores de contato, como o olhar mútuo, o sorriso para o outro ou ainda serem menos responsivos quando chamados à interagir.

Um caso de nossa experiência clínica, publicado em Angerami (1998), ilustra brevemente essa condição da reciprocidade:

Júlia era um bebê nascido pré-termo, com 1.600 Kg., necessitando de cuidados, inicialmente intensivos e mais tarde semi intensivos para que alcançasse um equilíbrio de suas funções vitais e atingisse um peso ideal, e recebesse alta hospitalar .

Primeira filha de um jovem casal, sua mãe (Alzira) a visitava diariamente, passando muito tempo com a filha nos braços a acariciar-lhe, enquanto chorava muito.

Nosso primeiro contato foi na sala de amamentação, onde Alzira chorava muito, enquanto retirava leite do peito. Começamos a conversar, logo após nossa aproximação e apresentação. Ela falou de sua imensa tristeza e preocupação em acompanhar a filha naquele processo e, do quanto sentia-se responsável por tudo que estava acontecendo e incapaz de dar a ela o alimento que esta necessitava - dizia que seu leite era fraco e que estava diminuindo a cada dia já que Júlia não ganhava peso e sua situação estava estacionada há vários dias.

Nossa conversa foi se desenrolando, com poucas palavras de nossa parte, com Alzira falando o quanto não suportava mais aquela situação de vir todos os dias amamentar - com uma série de dificuldades, inclusive de locomoção sem que a criança respondesse da forma como ela esperava.

Outras questões foram surgindo tão naturalmente que a impressão que tínhamos era a de que, mais do que sentir-se à vontade conosco, Alzira sentia-se aliviada por estar falando sobre si para alguém que estava ali só para ouvi-la, e falar a ela sem críticas ou conselhos.

Tivemos outros dois encontros, solicitados por ela, através da enfermagem. Falávamos dela, de suas necessidades pessoais, dos problemas familiares, de como havia vivido toda a gravidez, do marido, do casamento em crise....

Nossa compreensão era a de que toda aquela problemática acabava por interferir na relação dessa mãe com sua filha, o que favorecia o surgimento de dificuldades que cada uma expressava a seu modo: Júlia, não ganhando peso e parecendo "não colaborar" com o tratamento, o que retardava sua alta; e a mãe sentindo-se culpada por não poder dar a filha o suporte que esta necessitava, pois ela própria sentia-se naquele momento, bastante só e desamparada.

Oferecemos à Alzira nossa "leitura" da situação, pedindo a ela sua concordância ou não com a mesma. Parecendo surpresa, com a nova dimensão de sua problemática, disse que até então considerava-se como única responsável por todo aquele sofrimento, sem se dar conta do quanto as situações sociais difíceis que vinha enfrentando impediam que ela se alegrasse com o nascimento da filha tão esperada e desejada.

Alzira parecia tranqüilizar-se mais a cada encontro. Quando estava com a filha nos braços já não chorava mais e não parecia tão desesperada. Ao contrário, passou a conversar com Júlia e estimulá-la a mamar no peito. Demonstrava grande atenção às necessidades do bebê em mudar de posição, fazer pequenas pausas para descansar durante as mamadas e retribuía aos olhares da filha com um sorriso de alegria, quando esta abria os olhos e parecia procurar os olhos da mãe.

Júlia passou a mamar no peito, ganhando peso e fazendo progressos notáveis, verbalizados por uma enfermeira que um dia exclamou "nossa o que aconteceu com a Júlia? Parece que acordou".

Decorridos 10 dias de nosso primeiro encontro e 33 dias de internação, Júlia recebeu alta hospitalar, indo para casa com sua mãe, que não escondia sua expressão de felicidade e alívio.

Acreditamos que neste caso, a intervenção feita junto à mãe, no sentido de acolhê-la em suas angústias numa situação tão difícil, pôde restabelecer nela uma certa condição de alívio e bem estar psíquico, favorecendo um contato mais rico e satisfatório tanto para Alzira como para sua filha.

Bowlby (1990) afirma com relação à estabilidade dos padrões de apego que quanto mais satisfação o padrão de interação adotado por um par proporcionar a cada parceiro, mais estável ele será. Por outro lado, quando o padrão desenvolvido pela dupla é insatisfatório para um ou ambos, a tendência à estabilidade diminui, já que o parceiro descontente tentará sempre alterá-lo.

Na medida em que a criança cresce ganha autonomia com a sofisticação do sistema de locomoção, o desenvolvimento da fala e o controle dos esfincters. Inicia seu processo de socialização com a entrada na pré escola ampliando suas possibilidades de novos vínculos afetivos.

Com isso os comportamentos de apego à mãe tornam-se menos visíveis, a ansiedade de separação diminui pois a criança passa a compreender a continuidade do relacionamento com sua mãe mesmo na ausência desta. A esta compreensão de continuidade Bowlby dá o nome de "Parceria de Objetivo Corrigido".

Os modelos de funcionamento interno de uma criança, tendem a se repetir durante toda sua vida, com comportamentos que indicam maior ou menor segurança em si própria e no ambiente. Nos pré escolares, crianças entre 3 e 4 anos, esses comportamentos só se manifestam em situações estressantes, quando a busca por uma base segura pode ser visivelmente percebida. É comum observarmos uma criança dessa idade brincando, tranqüilamente, longe de sua mãe, porém quando se machuca e chora corre para a mãe em busca de conforto e segurança.

Berk (1999), cita um estudo longitudinal onde os bebês classificados como tendo um padrão de apego seguro, apresentaram, aos 2 anos de idade, uma maior elaboração em jogos simbólicos e uma maior persistência, flexibilidade e entusiasmo na solução de problemas.

Essas mesmas crianças aos 4 anos foram avaliadas, por seus professores como socialmente competentes, cooperativas, autônomas e com uma alta auto estima. Características que se mantiveram quando foram novamente avaliadas aos 11 anos de idade.

Em contrapartida, as crianças que haviam recebido uma avaliação inicial de apego inseguro/evasivo eram mais isoladas e desvinculadas do grupo, aos 2 anos de idade. E as que foram consideradas como um apego inseguro/resistente, mostravam-se, nessa mesma idade, destrutivos e de difícil interação.

Bee (1996), cita diversos estudos que apontam para a persistência, em crianças de idades entre 6 e 7 anos, dos padrões de apego demonstrados no período de bebês.

Crianças avaliadas como seguramente apegadas no período dos 12 aos 18 meses mostraram-se, na idade escolar, mais sociáveis e positivas em suas relações com amigos e irmãos e menos dependentes dos professores, ou seja tendo maior funcionalidade nas relações com os outros e em ambientes fora do lar.

O padrão inicial de apego seguro parece favorecer nas crianças uma maior autoconfiança e competência social.

Em nossa experiência clínica temos trabalhado, nos últimos 12 meses, com crianças na faixa etária entre 24 e 36 meses. Embora o objetivo central de nosso trabalho não seja avaliar os padrões de apego apresentados por essas crianças, temos observado suas relações com suas mães e com o ambiente.

Nessas observações temos identificado padrões semelhantes aqueles descritos por Ainsworth e Main, citados em Bee (1996). Apesar de não termos uma classificação anterior de apego para essas crianças, notamos que aquelas que parecem ter um modelo de apego seguro, tendem a demonstrar uma maior liberdade na exploração do ambiente, melhor interação conosco, assim como uma maior atenção e concentração nas tarefas propostas.

Enquanto suas mães mostram-se mais realistas, quanto à capacidade de realização de seus filhos, menos ansiosas em relação às possíveis falhas que as crianças possam ter e, mais seguras quanto à sua própria atuação no papel de mães.

Essas mães parecem manter com seus filhos vínculos afetivos, que os incentivam a novos desafios, favorecendo um ritmo de desenvolvimento mais rápido e harmonioso.

Por outro lado observamos que aquelas crianças que parecem ter um apego do tipo esquivo, ansioso, resistente ou desorganizado, são mais resistentes ao contato e tem pior desempenho nas tarefas propostas.

Suas mães, de um modo geral, demonstram uma ansiedade excessiva quanto às realizações da criança, exigindo desta mais do que ela pode fazer, ou então mostram-se pouco atentas, impacientes e/ou agressivas com seus filhos.

Estas observações não podem ser tomadas como relatos científicos, já que falta a elas todo o rigor necessário a descrições deste tipo. Elas foram citadas apenas como exemplos de como podemos encontrar e reconhecer em nosso cotidiano, os diversos padrões de apego. Apesar disto nos fazem questionar como estes padrões podem estar interferindo positiva ou negativamente nas realizações destas crianças.

Na adolescência, os comportamentos de apego de uma criança a seus pais, sofre uma grande mudança, tornando-se ainda menos visíveis. Ao mesmo tempo, o vínculo com outros adultos e pessoas da mesma idade adquire maior importância.

Alguns adolescentes desligam-se inteiramente de seus pais, outros permanecem intensamente apegados e, entre os dois extremos situam-se aqueles que mantém o apego a seus pais sendo capazes também de estabelecer fortes vínculos afetivos com outras pessoas (Bowlby, 1990).

No caso dos adolescentes, a maioria dos autores consultados parece concordar com a tese de que um padrão de apego seguro na infância, parece favorecer os processos de escolhas próprias desta fase, como a escolha profissional, do grupo de amigos e aquelas relacionadas a comportamentos pró sociais. Por outro lado atos de pequena delinqüência, e o experimentar drogas estão ligados a um padrão de apego inseguro.

Durante a vida adulta quando, segundo Erickson as tarefas centrais do indivíduo são a criatividade profissional, o treinamento da próxima geração e finalmente, a adoção de um estilo de vida que lhe permita uma maior proximidade de sua identidade básica, muitas pessoas dirigem seus comportamentos de apego à instituições, grupos de trabalho, grupos religiosos e políticos entre outros, fazendo muitas vezes dessas instituições a figura de apego principal em suas vidas Bee (1996).

Embora Bowlby, (1990) afirme ser natural, em algumas situações particularmente estressantes, haver um recrudescimento dos comportamentos de apego, mesmo em indivíduos adultos, não representando uma patologia, é importante que o clínico possa diferenciar essas situações de um modelo patológico de funcionamento.

Podemos pensar em algumas questões que fazem parte de nosso cotidiano e que talvez possam ser reflexos de padrões de apego desenvolvidos na primeira infância:

Indivíduos que chegam à vida adulta demonstrando por seus parceiros (marido ou esposa), ciúmes excessivos, ou uma necessidade incomum de proximidade física. Ou, por outro lado pessoas que evitam vínculos afetivos mais íntimos, teriam sido crianças com padrões de apego inseguros na infância?

Ou ainda, a própria vinculação à grupos de trabalho ou religiosos de que fala Erickson, pode assumir um tom de compensação patológica? Esta problemática poderia ser influenciada por modelos de apego desenvolvidos na primeira infância?

Estas questões nos parecem pertinentes, já que o apego tem sido considerado como um importante fator constituinte da personalidade, tendo sido incluída no DSM-IV uma classificação diagnostica para estas disfunções sob o título de "Transtorno de Apego Reativo na Infância", descrito como:

[...] ligação acentuadamente perturbada e inadequada ao nível de desenvolvimento na maioria dos contextos, com início antes dos 5 anos de idade e associada ao recebimento de cuidados amplamente patológicos[...] (DSM-IV pg. 113 ).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Vimos, brevemente, como se desenvolve a relação de apego entre o bebê e sua mãe e seus possíveis reflexos para o desenvolvimento futuro da criança.

O apego aparece como um dos aspectos constituintes da personalidade do indivíduo que é influenciado por fatores como as características da mãe, o temperamento da criança e o meio social em que vive a dupla.

Por outro lado, o padrão de apego desenvolvido no primeiro ano de vida influencia a formação da auto-imagem e auto-conceito, fazendo das crianças que tiveram um modelo de apego seguro, indivíduos mais competentes e aceitos socialmente.

Todos os autores pesquisados afirmam a necessidade de maiores investigações tanto no que diz respeito a interrelação dos fatores que contribuem para a formação dos diversos padrões de apego quanto em sua persistência ao longo da vida.

Bowlby (1990) enfatiza que "variável alguma tem mais profundos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade do que as experiências infantis no seio da família: a começar dos primeiros meses e da relação com a mãe".

Portanto não nos parece errado afirmar que a relação entre apego seguro - auto imagem realista - auto conceito positivo, contribua substancialmente para a formação de adultos realizadores e auto realizados, tendendo sempre para o crescimento e positividade pessoal e social.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais- DSM-IV. Porto Alegre. Artes Médicas.

ANGERAMI, W. (org.) (1998). Urgências Psicológicas no Hospital. São Paulo. Pioneira.

BEE, H. (1996). A Criança em Desenvolvimento. Porto Alegre: Artes Médicas.

BERK, L. (1999). Desarrollo del Niño y del Adolescente. Madrid: Prentice Ibéria.

BOWLBY, J. (1990). Trilogia Apego e Perda. Volumes I e II. São Paulo. Martins Fontes.

BRAZELTON, T. (1988). O Desenvolvimento do Apego. Porto Alegre. Artes Médicas.

BUSNEL, M-C. (1997). A linguagem dos Bebês: Sabemos Escutá-los? São Paulo. Escuta.

HOFFMAN, L.; PARIS, S. y HALL, E.(1996). Psicologia del desarrollo Hoy. Madrid. Mc Graw-Hill.

KLAUS, M.; KENNELL, J. (1993). Pais/Bebê: A Formação do Apego. Porto Alegre. Artes Médicas.

MAZET, P. e STOLERU, S. (1990). Manual de Psicopatologia do Recém-nascido. Porto Alegre. Artes Médicas.

WINNICOTT, D. W. (1993). A Família e o Desenvolvimento Individual. São Paulo. Martins Fontes.

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