Matéria retirada da Revista VEJA de 15 de junho de 2005
UM É POUCO, DOIS É BOM, TRÊS PODE SER DEMAIS
Pesquisas mostram que os casais não estão preparados
Leia abaixo alguns trechos retirados de artigos úteis para os pais quando da chegada do primeiro bebê:
O quarto está lindo, as roupinhas foram compradas com todo o carinho, o chá-de-fraldas foi um sucesso e os pais estão, naturalmente, muito felizes, com o nascimento do primeiro rebento. Ele é saudável, uma graça, tem os olhos do pai, o queixo da mãe e sua chegada parece ser o início da felicidade eterna. No entanto, ao chegar em casa, o pipolho transforma o lar doce lar num caos. Entre um e outro bilu-bilu, há inúmeras trocas de fralda, mamadas nem sempre fáceis, cólicas, choros, noites em claro, visitas bem-intencionadas porém inoportunas. Tudo muito normal. Mas o impacto da nova rotina pode ter conseqüências devastadoras para o casamento dos recém-papais. Esse lado nada cor-de-rosa da vida com o primeiro bebê a bordo foi esmiuçado por duas pesquisas recentes realizadas pelas universidades americanas da Califórnia e de Washington, que ouviram cerca de 200 pais e mães de primeira viagem. As conclusões são impressionantes. Mais da metade disse enfrentar crises conjugais sérias, 92% afirmaram ter mais conflitos com o parceiro do que tinham antes e 20% se separaram até dois anos depois do nascimento do bebê.
Os problemas que atormentam os casais nesse período em nada lembram o “e foram felizes para sempre” dos contos de fada – que terminam, aliás, muito antes de a princesa engravidar do primeiro filho. A vida social desaparece, o círculo de amizades muda, o pai se ressente de ter de dividir com o bebê o amor e a atenção da mulher. Ela, por seu lado, está fora de forma e insegura. São arestas, aliás, que começam a surgir já no último trimestre da gravidez. Nesse período, a freqüência de relações sexuais costuma despencar, maridos e mulheres demonstram crescente intolerância um com o outro e a insatisfação com o relacionamento tem início, estendendo-se normalmente até o primeiro aniversário do filho. A paternidade também costuma trazer à tona divergências em torno da vida familiar e dos cuidados com o bebê. NA maior parte dos casos são mães – as mais vulneráveis à depressão nos meses seguintes ao parto – que demonstram descontentamento primeiro. Sem preparo, os casais se desesperam com as novas responsabilidades e, muitas vezes, arruínam de vez o sonho de construir uma família. “ Quem diz que essa é uma fase só de alegrias está mentindo”, avisa Fernanda Gouveia, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital e Maternidade de São Luiz, em São Paulo.
Encarar essa nova etapa da vida sem tanta idealização é o primeiro passo para evitar que a chegada do bebê seja um terremoto capaz de abalar os alicerces do casamento. Dividir tarefas, por exemplo, é fundamental. É verdade que essa não é a prática mais comum. Na pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia., os casais foram estimulados a combinar qual seria a divisão de tarefas antes mesmo de o bebê nascer. Seis meses depois, com os pimpolhos já quase engatinhando, a maioria dos pais continuava sem se mexer para trocar uma única fralda. As mães, evidentemente, estavam cansadas, sobrecarregadas e irritadas. Os especialistas sugerem que se insista numa divisão das atividades, que inclua, por exemplo, quem vai acordar de madrugada para dar mamadeira ou quem troca fralda naquele dia. “ O comportamento do homem é fator importantíssimo para determinar se o casamento será feliz ou não depois de tantas transformações”, afirma o psicólogo americano Alyson Shapiro, um dos responsáveis pelo programa Bringing Baby Home (Trazendo o Bebê para Casa), que acompanhou, em três etapas, mais de 100 casais prestes a ser pais pela primeira vez: no último trimestre de gravidez, três meses após o nascimento do bebê e , depois quando ele completou 1 ano.
Outro aspecto importante apontado pelos pesquisadores é que a solidez do casamento antes da chegada do primeiro filho é um fator essencial para o futuro relacionamento. Administrar tanta novidade não é, definitivamente, tarefa fácil. Mas, se o casal já está em crise antes da gravidez, evidentemente o nascimento da criança só agravará os problemas. Se, ao contrário, a relação é carinhosa e companheira, o vínculo entre os parceiros é forte e a chance de separação após a chegada do bebê, obviamente menor. O casal une forças, empenha-se e fica mais fácil superar qualquer crise. Os pesquisadores da Universidade de Washington acompanharam 82 pares desde o primeiro ano de casamento. Ao longo do estudo, 43 casais tiveram filhos e 33% das mulheres afirmaram que, graças ao convívio cordial com o parceiro, os desafios da maternidade foram enfrentados de forma tranqüila. “ A parceria entre marido e mulher nesses momentos é importante para que o casamento não chegue ao fim por desgaste cotidiano”, afirma a psicóloga Fernanda Gouveia.
As conclusões do estudo não chegam a se constituir num manual de blindagem de casamento – não existe, nem jamais existirá, uma fórmula para encarar tantas novidades com total serenidade. Mas ler bastante sobre os cuidados e o desenvolvimento dos filhos e procurar orientação de um profissional em momentos de dúvidas é sempre recomendado. A ajuda da família também não deve ser desprezada. Permita a participação dos familiares, mas não esqueça que quem dita as regras da vida de um bebê são os próprios pais. Ainda que os avós, tios ou mesmo amigas mais experientes estejam providos das melhores intenções, eles devem saber exatamente quais são os seus limites. Na hora de tomar decisões importantes que dizem respeito ao filho, o casal deve conversar bastante e, junto, chegar a um denominador comum. “ A chegada do primeiro filho é sempre sinônimo de grande mudança. O casamento resiste ou não, dependendo de como as dificuldades são conduzidas”, disse a VEJA o americano Jay Belsky, autor do livro A Transição para a Paternidade (The Transition to Parenthood) e diretor do Instituto para Estudo das Crianças e Famílias e Questões Sociais da Universidade de Londres. No auge do desespero, lembre-se de que os problemas que surgem durante os primeiros meses do nascimento do bebê são passageiros. Além disso, apesar de não deixar ninguém dormir, ele tem os olhos do pai, o queixo da mãe e é mesmo uma gracinha.
Fonte: Roberta Salomone
Nasce uma crise
O que acontece com os pais de primeira viagem
20% se separam até dois anos depois do nascimento do bebê
92% afirmam ter mais conflitos com o parceiro do que tinham antes
70% acham que a satisfação com o casamento cai no primeiro ano de vida do filho
67% passam por sérias crises conjugais
30% apresentam mais sinais de depressão
Fonte:Universidade da Califórnia, Universidade de Washington e Instituto de Pesquisa em Relacionamento.
Proteja seu casamento
Como encarar a vida com um bebê a bordo
Leia bastante sobre os cuidados e o desenvolvimento dos filhos. Quando tiver dúvidas, procure orientação profissional.
Aceite ajuda externa para dividir as tarefas com o bebê sempre que precisar.
Permita a participação da família, mas lembre-se de que o casal deve ditar as regras. Imponha limites aos avós.
Tente ter tranqüilidade para administrar as novas resonsabilidades. Resolva uma coisa de cada vez.
Converse sempre com seu parceiro. É importante que os dois participem igualmente de cada decisão.
Os pais devem dividir os cuidados com o bebê e com a casa para nenhum dos dois ficar sobrecarregado.
Mesmo que seu tempo seja restrito reserve algum tempo para namorar e se divertir.
Fonte: Universidade de Washington e Fernanda Gouveia, do Hospital São Luis e da PUC/SP
Depoimentos de alguns participantes:
"Fiz os cursos da Fernanda em Curitiba - tanto o Encontro de Mães como o grupo de estudos sobre educação infantil - os dois foram bárbaros. Coloquei, também, a minha babá para fazer treinamento com ela, e o resultado foi excelente! Aliás, a Fernanda treinou as babás dos Batutinhas e de diversas outras escolinhas cariocas. Ela é uma profissional altamente qualificada e muito competente que poderá nos dar várias dicas, nos ajudando nessa tarefa maravilhosa que é educar os nossos filhos com amor, para que eles se tornem adultos seguros e felizes.
Vale muito a pena ouvir o que a Fernanda tem a dizer, e compartilhar com
ela nossas dúvidas e preocupações quanto a educação de nossos pimpolhos desde a contratação da babá para o recém nascido até o momento adequado, a escolha e a adaptação na escolinha."
Monica Cavalcanti